A Psico na cultura: Documentário "O golpista do Tinder"

Olá, tudo bem por aí?


Antes de começar quero esclarecer que deixei propositalmente o hype do filme passar para escrever, pois seria complicado não criar spoilres, portanto esteja avisada ou avisado, esse texto contém spoilres.


“O Golpista do Tinder” é um documentário lançado pela Netflix no ano de 2022 e conta a história de Simon Leviev, pseudônimo criado pelo israelense Shimon Hayut, com intuito de aplicar golpes financeiros e sentimentais em mulheres, especialmente do norte da Europa e Escandinávia.


Por meio de um aplicativo de namoro Simon conhecia suas vítimas, demonstrando ter uma vida de luxos e riquezas, marcava encontros onde ia ganhando a confiança delas, para futuramente aplicar golpes financeiros em suas “namoradas”.


O documentário é bem interessante ao mostrar o lado das vítimas, e como todo o esquema era meticulosamente criado para fazer sentido, também demonstra como à partir da astúcia de uma das vítimas, o golpe ruiu. Infelizmente nosso “amigo” Simon continua por aí, aplicando diferentes golpes e mostrando como não somente a justiça é lenta e favorece ao criminoso em diversas situações.


E o que o filme tem a ver com a Psicologia?


Muita coisa, caros leitores…


Vamos começar com um ponto sensível, li em diversos comentários na internet, pessoas acusando as vítimas de serem idiotas, interesseiras e burras, o tribunal da rede não perdoa não é mesmo?


Porém o golpe era muito bem planejado e também executado, Simon se aproveitava da carência sentimental de sua vítimas para aplicá-lo, criando um ambiente de sonhos e fantasias difícil de ser destruído por pensamentos “negativos”, tais como: Será que isso é verdade? Seria esse homem um golpista? Por que não posso ter um amor como esse?


E convenhamos em golpes tão bem calculados é complicado culpar as vítimas, é evidente que assistindo ao documentário seu espírito de Sherlock Holmes pode falar alto, porém será que na vida real você jamais foi enganado ou enganada em qualquer situação? Acusar é fácil não é mesmo?


Vamos pensar no golpe em termos psicológicos agora, tudo começa na escolha de potenciais vítimas, ou você acha que Simon escolhia suas “amantes” aleatoriamente?


Muito se falou sobre sua preferência por loiras, porém a questão vai muito além disso. Simon tinha um perfil bem definido de vítimas, mulheres entre 30 e 45 anos do norte da Europa e principalmente da Escandinávia, e por que isso?


Pense bem, o intuito principal de Simon era conseguir dinheiro para sustentar o golpe, e seu estilo de vida, ele não teria sucesso abordando mulheres de países pobres como o Brasil ou nossos vizinhos latino americanos. Além do mais, nosso noticiário é repleto de golpes e tentativas dos mesmos,o que nos faz estarmos sempre desconfiados, aquela coisa de quando a esmola é demais até o santo desconfia.


Outro ponto a ser levado em conta é a questão física, e de segurança, você acha que Simon se arriscaria por nossas bandas onde poderia ser sequestrado e talvez até assassinado? Mesmo em sua terra natal, Israel, o golpista ficou com um pé atrás.


Levando esses fatores em conta, a escolha da Escandinávia era um tanto óbvia, países pacíficos com uma ótima qualidade de vida e menor incidência de crimes e golpes, tornam a população um tanto “inocente” em relação às segundas intenções das pessoas. Além do mais, por serem economias estáveis, a população desses países têm maior acesso ao crédito por meio de empréstimos, o que favorecia a ação do pilantra.


Você achou que era só pelas loiras? Por que não a Rússia então não é mesmo? Nosso golpista é medroso pra caramba.


Falamos do golpista, porém para haver um golpe consumado é necessário uma segunda parte; a vítima, e sobre elas falaremos um pouquinho.


Mais uma vez, seria muito fácil entrar em reducionismo de acusar as vítimas de “idiotas” como os discursos internet afora nos mostram, para entender o golpe você precisa considerar todo o contexto cultural exposto acima, onde há menos crimes, as populações ficam realmente mais sujeitas a cair no conto do vigário.


Também seria muito fácil reduzir as mulheres ao rótulo de “interesseiras” em qualquer tipo de relação existe o interesse, caso contrário não existe relação não é mesmo?


Eu escrevo esses textos malfeitos com interesse que sejam lidos, caso contrário eu “gastaria” meu tempo com outras atividades.


Eu gostaria então de falar sobre Cecilie, a principal protagonista do filme é a vítima “ideal” na cabeça de Simon.


É notável como a garota, mesmo tendo sofrido tais perdas financeiras, sendo enganada e maltratada sentimentalmente, ainda apresenta certa admiração pela figura de Simon, um típico caso de Síndrome de Estocolmo.


E por que algo assim acontece? Essa é uma pergunta bem complexa, será necessário meses, talvez anos de atendimento à Cecilie por exemplo, para conceituar tal situação… excesso de sonhos, falta de “emoções” na vida, pura ingenuidade tudo pode ser inferido, nada afirmado, queria te mostrar aqui como o comportamento e a mente das pessoas são complexos, fazendo da psicologia uma ciência fascinante.


E o que fica de lição de toda essa história? Primeiro, infelizmente parece que alguns crimes compensam, afinal Simon continua a solta, e quiçá aplicando diferentes golpes ao redor do mundo. Segundo é muito complicado tentar culpabilizar qualquer vítima sem entender totalmente o contexto das coisas, as vezes você pode estar nesse papel, descobrir e ser também chamado de idiota.


Conhece alguém vítima de golpe de qualquer natureza? Denuncie e ofereça ajuda à pessoa. Foi vítima de algum tipo de golpe? Procure ajuda, não tenha vergonha a vida segue sempre.


É um ou uma golpista? Desculpe, mas minha educação não permite escrever sobre o que eu gostaria…


Uma boa semana para você!


Escrito por Luciano Arruda: Psicólogo e fundador do Fluidez Mental, já foi vítima de golpes por aí e está sempre disponível para ajudar no tratamento de quaisquer vítimas de qualquer golpe, seu contato é: luciano@fluidezmental.com.br




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